Enxaqueca crônica: por que tratar a crise não basta
A maioria dos pacientes recebe analgésico. Poucos recebem tratamento preventivo. Entenda por que essa diferença muda tudo.
Imagine ter dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês. Esse é o critério diagnóstico para enxaqueca crônica — e a resposta mais comum que esses pacientes recebem ainda é uma receita de analgésico para "usar quando a dor aparecer". Isso não é tratamento. É gerenciamento de sintoma.
O ERRO MAIS COMUM: FOCAR SÓ NA CRISE
Quando a crise passa, parece que o problema foi resolvido. Mas o que acontece depois? A próxima crise vem. E a seguinte. Cada vez que o paciente usa analgésico para abortar a dor, o sistema nervoso central pode ficar mais sensível — tornando o cérebro mais "pronto" para disparar a próxima crise.
Atenção: o uso de analgésicos por mais de 10 a 15 dias por mês pode induzir a cefaleia por uso excessivo de medicação (MOH) — uma condição em que o próprio remédio se torna fator perpetuador da dor crônica.
Tratar apenas a crise sem estratégia preventiva é como apagar um incêndio sem desligar o fogão.
POR QUE O CÉREBRO CRONIFICA A DOR?
A enxaqueca não é "só uma dor de cabeça". É uma doença neurológica. Crises repetidas aumentam a excitabilidade dos neurônios, o sistema trigeminovascular libera moléculas inflamatórias (como o CGRP) que mantêm o ciclo de dor ativo, e com o tempo o cérebro literalmente "aprende" a ter dor. Esse processo se chama cronificação.
O QUE É O TRATAMENTO PREVENTIVO — E POR QUE ELE MUDA O JOGO
O objetivo não é eliminar toda dor imediatamente. É reduzir frequência, intensidade e duração das crises ao longo do tempo, quebrando o ciclo. As opções incluem:
• Preventivos orais: topiramato, propranolol, amitriptilina
• Anticorpos anti-CGRP: erenumabe, fremanezumabe, galcanezumabe — aplicação mensal ou trimestral, excelente perfil de segurança
• Toxina botulínica: aplicação a cada 12 semanas, indicada especificamente para enxaqueca crônica
• Neuromodulação não invasiva: opção adjuvante com crescente suporte na literatura
A indicação para preventivo começa com 4 ou mais dias de enxaqueca por mês com impacto funcional — muito antes de chegar à cronicidade.
O QUE O PACIENTE PRECISA OUVIR
Enxaqueca crônica é tratável. Com a estratégia certa, a maioria dos pacientes consegue retornar à enxaqueca episódica e recuperar qualidade de vida. A conversa sobre preventivo não deveria começar quando o paciente já tem 15 dias de dor por mês. Ela deveria acontecer muito antes.




